Caminho até o ponto determinada. Não quero mais me enfiar debaixo
da terra, entrar naquele buraco do metrô. Sempre de pé, como se tivesse
recebido uma sentença. Todo dia a mesma história, rolando as pedras, como um remake moderninho do castigo de Sísifo.
Aquela gente esbarrando em mim. Cheirando a falta de banho. Todos compenetrados
em não roçar os olhares. Nada disso, hoje vou de ônibus. Ar fresco, paisagem,
bancos vazios. Não me importa se vai demorar mais a chegar.
Primeiro choque: os bancos estão todos ocupados. Não tem lugar. A
menos que alguém saia logo. Olho para as pessoas sentadas tentando adivinhar em
que ponto cada uma vai descer. Dependendo da roupa, da idade e da cara posso
imaginar, sem erro, se vão até o Centro ou se ficam nas primeiras paradas. Quem
está dormindo não conta. Já a menina de uniforme conversando com a amiga deve
sair no ponto do Instituto de Educação. O senhorzinho com terno da década de
cinquenta talvez saia na Praça da Bandeira. Ali tem um posto da Previdência
Social onde ele pode reclamar do valor da aposentadoria.
Então, fico perto da entrada ou no meio? Onde são maiores as
minhas chances? O mauricinho de camisa social com certeza só vai levantar na Rua da Assembléia. Preciso me posicionar direitinho para dar o bote no
primeiro assento liberado.
Mais gente entra no ônibus e a concorrência me empurra mais para o
fundo. Que raiva! As mocinhas do colégio levantam e uma garota com cara de
insuportável pega os lugares junto com a mãe, mais insuportável ainda. Saco.
Não consigo nem pensar em sair de onde estou e já estamos quase na Central. Depois
daí é que ninguém se mexe.
A mulher dormindo sob o meu nariz acorda. Ela me olha, medindo o
que vê de baixo até em cima, e logo pergunta: “quer que eu segure sua bolsa?”
Não, cacete. Mas respondo não obrigada com um sorriso amável nos lábios. Eu
quero é o seu lugar, só que isso você não vai me oferecer. E se oferecesse eu
ficaria pior do que já estou. Tem gente que faz isso para provar a si mesma que
ainda é jovem. Deveriam proibir esse tipo de atitude. Meu pé está doendo. Acho
que vou desistir.
O senhorzinho de terno antiquado certamente tem uma alma piedosa.
Ele levanta, finalmente. Boa sorte lá no posto da previdência. Tomara que não
enrolem o senhor.
Na ponta do banco, o cara com fone de ouvido não se move um
centímetro para eu passar. O que ele quer? Que eu esfregue minha bunda na cara
dele? Você pode me dar um licencinha? “Hã?” Enfim sento bem do lado da janela
como imaginei desde o início. O dia está bonito e a sensação do vento e do sol
no rosto é um prêmio. Esse vento me serve como uma boa metáfora de liberdade.
Pena que o meu cabelo não saiba lidar com isso. De olhos fechados, rezo. Tento guardar
o vento no rosto o máximo de tempo possível. Deus, não quero chegar logo!
Parece que a minha fé fez um estrondo enorme. Uma lufada de poeira
corta a minha pele. O ônibus, as pessoas, a paisagem, tudo fica branco de
repente. Ninguém grita. Eu nem consigo mover os lábios. Pisco várias vezes
tentando enxergar alguma coisa. Um nevoeiro cobre toda a Avenida Presidente
Vargas. Quando os gritos começam vem o segundo estrondo e cala a boca de todo
mundo. Eu me encolho toda. Preciso me proteger no chão, mas o desespero de
entender o que está acontecendo me faz arriscar. Vou até a janela.
O prédio está caindo. De verdade! São muitos, sem parar. Estão
desabando. O barulho, imenso, abafa qualquer som humano. Os edifícios dos dois
lados da rua caem elegantemente, um depois do outro, como se estivessem
cansados e simplesmente desistissem de estar ali. O barulho é o preço a pagar.
Assustado, o ônibus acelera com medo de que alguma peça desse
dominó macabro tombe para o seu lado. Nada se vê além da poeira. Não
consigo respirar. O motor insiste até fazer a gente voar para longe daquilo
tudo, mesmo que ninguém saiba o que é aquilo tudo. Fico agarrada aos pés de um
banco, humilde diante do pavor que me jogou ali. Será que é a
minha vez? Pergunta ou oração, ninguém escuta.
Uma hora o ônibus para. Nem contava mais com isso. A brancura do ar
e o silêncio anunciam um tipo de morte sem dor, êxtase e nem tristeza.
Talvez seja o céu ou um tipo de inferno. Não sei. Só sei que preciso sair desse
lugar.
Aos poucos, consigo manter os olhos abertos por mais tempo.
Estamos na Candelária. Escuto gente chorando baixinho, gemidos e infindáveis
“meu Deus”. A igreja que sempre enfeitou o final da Avenida Presidente Vargas continua de pé. Uso
sua imagem como apoio e procuro minhas pernas com as mãos tentando me levantar.
Cacos de vidro branquinhos cobrem o chão, os bancos, minha roupa e a pele que
está de fora. O cara que estava do meu lado parece desacordado no meio do
corredor. Tem uma moça abaixada chorando sobre um corpo e mais gente morta.
Continuo sobre os cacos de vidro até a porta. Desço dois degraus e piso na
praça em frente à Igreja. Alguns poucos fantasmas perambulam por lá, como eu.
Não fazem nenhum barulho. Olho para frente: tudo pintado de branco e o silêncio
de morte. Os prédios sumiram. Nunca vi tanto vazio. Não há mais rua, calçada,
caminho. Apenas espaço e quietude. A avenida virou uma praça de guerra, sem
guerra. Deveríamos copiar os chineses e chamá-la de Praça da Paz Celestial.
Sigo a pé.