quinta-feira, 17 de abril de 2014

Vôo


Chegando no Rio. Voltei, mas não adianta avisar. Espremida na cadeira do avião comecei a percorrer o roteiro costumeiro de pensamentos insanos. Quanto mais imobilizada melhor a viagem. Foi assim que me dei conta: não era só de você que tinha saudade. Mas das suas partes. A boca, os dedos, o pau. É muita ausência!
Não queria perder a pose diante da perua ao lado. Então cruzei a perna na calça preta apertada. Era tarde. Lembrei a sua boca com fome. E me imaginei provando um beijo farto, sem suspiros ou suspense. O encontro de quem procura e acha. Busca mais e mais acha. E assim numa sucessão de línguas bárbaras. Os dedos, esses mais pacientes, percorriam meus segredos com calma. Ao encontrá-los, já suados de ansiedade, recheavam seus mistérios com gemidos libertários. Minhas coxas pareciam fracas diante do desejo das partes. O quadril se inclinava para trás, milimetricamente. E na interseção das causas, o calor da intimidade se acendia. Eu me apertava perplexa. Como um homem endurecido pode ser tão macio ao toque. O beijo pode engolir enormes porções de desejo e cuspir tesão incomensurável. Melhorei a postura sentindo sua mão e braço segurando o meio de mim. Sonhei e implorei para que entrasse ali, no meio, passeando a sua presença na minha carne. A vontade doía, de tão grande. O encosto da poltrona rangeu, a imitar a cama sob nossos corpos. Respirei, meditando o sexo em um ponto imaginário de um ângulo incerto. Apertei os lábios para ajudar as coxas em seu esforço silencioso e patético. E um grito queimou entre as minhas pernas. Pousei.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O homem do Pau Oco















Estávamos na cama como num filme. A TV ligada, minha cabeça encostada no seu peito, a mão no pau. O peito em silêncio, quieto mesmo. Tudo tranquilo. Normal. Noite de sexta-feira em casa, relação estável, essas coisas. Só que faltava uma coisa. Estranho. Ouvi tantas vezes o coração dele batendo e me aconcheguei naquele tum-tum  gostoso. E agora, cadê? Eu levantei a cabeça para olhar seu rosto. Ele nem se mexeu. Continuava o mesmo, mas bem relaxado. Os olhos cegos pela TV pareciam ainda mais redondos. Suas pálpebras teimosas piscavam em câmera lenta. E então se fecharam suavemente. Ele dormiu como se nada estivesse acontecendo. Tentei voltar à mesma posição, deitada de lado, sentindo o calor daquele corpo tão conhecido, a cabeça apoiada no tronco quase sem pelos, o ouvido bem colado à pele como se quisesse sugar um som de dentro dele. Tudo para confirmar que estava enganada. Alguns ouvem demais. Eu estava escutando de menos. Nada. Nem tum nem som nenhum. O pau ainda na minha mão, duro e quente como deve ser. O peito mudo. Não, não. Isso é que não pode ser. Ai meu Deus. Fiquei maluca de vez, é isso? Que merda! Como pode isso? Eu aqui tão perto e não consigo ouvir o coração dele batendo. Morto ele não está. Será? Ainda colada nele, apertei um pouco a cabeça do pau, esperando que latejasse, enchendo-se um pouco mais daquele tesão básico, instintivo, que nem o sono tira. Continuava duro e só. Nenhum nervo se mexia dentro dele. Só ouvia o ar entrando e saindo pelo nariz. Às vezes passava pela boca meio aberta fazendo um barulho esquisito, mas familiar. Então morto ele não estava. Respirava como se o ar daquele quarto fosse tão puro quanto o da montanha. Calma, eu preciso ficar calma, tenho que respirar também, vai dar tudo certo, isso vai passar etecétera. Busquei um mínimo de lucidez para lidar com aquela situação. Sentei do lado dele e me torci toda para olhar dentro da boca e do nariz e ver se enxergava alguma coisa diferente. Tudo escuro, sem secreções. Um cheiro meio ácido. Como sempre. Quer dizer, mais ou menos. Em outras ocasiões o nariz dele estaria escorrendo por conta do ar condicionado ligado. Apesar da alergia, esse homem adorava o tal do ar condicionado. Aquele foi o único namorado que valorizava mais um quarto fresquinho do que o meu fogo nas noites mais quentes. Mas afinal, por que aquilo estava acontecendo logo com a gente? Que maluquice. Ele dormia pesado como sempre dormiu. Até ressonava de vez em quando. Parecia bem aquecido a ponto de transpirar. Seca. A pele estava seca. Nem suor saía dele, cacete. O que está acontecendo? Entrei em pânico. Vou sair daqui, fugir rápido. Que homem é esse na minha cama? O meu namorado eu conhecia, mas e esse corpo que só respira? É isso. Devo estar dormindo também. Sonhando. Sempre tenho pesadelos muito loucos. Aliviada, encostei a cabeça no peito dele novamente. Juro, queria relaxar, mas não aguentei e me concentrei toda para ver se sentia ainda que fosse uma leve vibração lá dentro. Só tive mais e mais daquele nada. Silêncio. Rezei para acordar e depois para ele despertar um minuto que fosse, virar e se enroscar em mim por trás, beijar meu pescoço só para continuar dormindo gostoso.  A essa altura o teto estava a 10 cm da minha cabeça e baixando. Minhas mãos, suadas e frias. Eu sim parecia morta. Respira. Tá tudo bem. Reza, reza. Respira. Enche a barriga, sopra, continua soprando. Então, no meio do meu desespero, lembrei do dia em que uma barata voadora entrou no meu quarto e eu sozinha em casa. Quando vi aquela coisa se mexendo na cortina, dei um pulo da cama, bati a porta e em dois segundos fui parar na sala. Foi tudo muito rápido. Até que aquela atitude instintiva fez o tempo parar. Eu me vi sozinha na minha sala abafada, sentada no sofá, olhando para as paredes. Enquanto isso a barata estava lá, no meu quarto, na minha cama, curtindo um friozinho e assistindo um dos meus programas favoritos na TV. Aí não deu, ou melhor, deu no que deu. Fui até a área de serviço peguei uma vassoura para me defender do medo e do nojo e não sosseguei até matar o bicho. É. Só tem um jeito de resolver isso: ver o que tem lá dentro. Fui até a cozinha e peguei a única faca grande e afiada que tinha em casa.  Eu me ajoelhei do lado dele na cama. Queria que fosse diferente.  Mas nesse momento, precisava pagar pra ver. Inspirei e fiz um pequeno furo com a ponta da faca logo abaixo do pescoço. O mais estranho é que ele não verteu nem uma gota de sangue. Isso me deu mais coragem para continuar. Cortei a pele e a carne logo abaixo e quando cheguei ao osso do peito, de onde saem as costelas, pressionei com força a faca, usando todo o peso do meu corpo para quebrá-lo. Depois foi como cortar a barriga de um peixe. A carne embaixo da pele não era vermelha, como acho que deveria ser, e sim um rosa claro, quase sem cor. Os ossos branquinhos e nada de sangue. Melhor assim. Fui até o baixo ventre, preservando intacto o pau que ainda se mantinha incrivelmente duro. Comecei a tatear lá dentro, no vão aberto onde se uniam as costelas. Claro que não encontrei nada. Ainda insisti e procurei mais com a outra mão. Não dava para acreditar. Que encontraria um vazio no estômago eu já sabia, ele era daquelas pessoas que engolem tudo com os olhos.  Parei um pouco para ver seu rosto. Ainda dormia. Respirava com os olhos cerrados. O ar entrando e saindo por todos os lados. Os lábios ressecados. A boca estéril.  Se pudesse lhe concederia um desejo sincero para que ali voltasse a brotar saliva. Sua boca se mantinha entreaberta. Parecia esperar alguma teta que ali se pendurasse de forma que o pescoço não precisasse nem se virar. No fim, o pau, cheio de promessas e disfarces, ainda se oferecia feito uma puta comida por dentro, a ostentar a casca, seu único apoio. Pois é. No oco um toco ruído. Bicho de pé.

Conto publicado na antologia de contos eróticos Ponto G, Anthology Editora


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Viagem

 


Caminho até o ponto determinada. Não quero mais me enfiar debaixo da terra, entrar naquele buraco do metrô. Sempre de pé, como se tivesse recebido uma sentença. Todo dia a mesma história, rolando as pedras, como um remake moderninho do castigo de Sísifo. Aquela gente esbarrando em mim. Cheirando a falta de banho. Todos compenetrados em não roçar os olhares. Nada disso, hoje vou de ônibus. Ar fresco, paisagem, bancos vazios. Não me importa se vai demorar mais a chegar.

Primeiro choque: os bancos estão todos ocupados. Não tem lugar. A menos que alguém saia logo. Olho para as pessoas sentadas tentando adivinhar em que ponto cada uma vai descer. Dependendo da roupa, da idade e da cara posso imaginar, sem erro, se vão até o Centro ou se ficam nas primeiras paradas. Quem está dormindo não conta. Já a menina de uniforme conversando com a amiga deve sair no ponto do Instituto de Educação. O senhorzinho com terno da década de cinquenta talvez saia na Praça da Bandeira. Ali tem um posto da Previdência Social onde ele pode reclamar do valor da aposentadoria.

Então, fico perto da entrada ou no meio? Onde são maiores as minhas chances? O mauricinho de camisa social com certeza só vai levantar na Rua da Assembléia. Preciso me posicionar direitinho para dar o bote no primeiro assento liberado.

Mais gente entra no ônibus e a concorrência me empurra mais para o fundo. Que raiva! As mocinhas do colégio levantam e uma garota com cara de insuportável pega os lugares junto com a mãe, mais insuportável ainda. Saco. Não consigo nem pensar em sair de onde estou e já estamos quase na Central. Depois daí é que ninguém se mexe.

A mulher dormindo sob o meu nariz acorda. Ela me olha, medindo o que vê de baixo até em cima, e logo pergunta: “quer que eu segure sua bolsa?” Não, cacete. Mas respondo não obrigada com um sorriso amável nos lábios. Eu quero é o seu lugar, só que isso você não vai me oferecer. E se oferecesse eu ficaria pior do que já estou. Tem gente que faz isso para provar a si mesma que ainda é jovem. Deveriam proibir esse tipo de atitude. Meu pé está doendo. Acho que vou desistir.

O senhorzinho de terno antiquado certamente tem uma alma piedosa. Ele levanta, finalmente. Boa sorte lá no posto da previdência. Tomara que não enrolem o senhor.

Na ponta do banco, o cara com fone de ouvido não se move um centímetro para eu passar. O que ele quer? Que eu esfregue minha bunda na cara dele? Você pode me dar um licencinha? “Hã?” Enfim sento bem do lado da janela como imaginei desde o início. O dia está bonito e a sensação do vento e do sol no rosto é um prêmio. Esse vento me serve como uma boa metáfora de liberdade. Pena que o meu cabelo não saiba lidar com isso. De olhos fechados, rezo. Tento guardar o vento no rosto o máximo de tempo possível. Deus, não quero chegar logo!

Parece que a minha fé fez um estrondo enorme. Uma lufada de poeira corta a minha pele. O ônibus, as pessoas, a paisagem, tudo fica branco de repente. Ninguém grita. Eu nem consigo mover os lábios. Pisco várias vezes tentando enxergar alguma coisa. Um nevoeiro cobre toda a Avenida Presidente Vargas. Quando os gritos começam vem o segundo estrondo e cala a boca de todo mundo. Eu me encolho toda. Preciso me proteger no chão, mas o desespero de entender o que está acontecendo me faz arriscar. Vou até a janela.

O prédio está caindo. De verdade! São muitos, sem parar. Estão desabando. O barulho, imenso, abafa qualquer som humano. Os edifícios dos dois lados da rua caem elegantemente, um depois do outro, como se estivessem cansados e simplesmente desistissem de estar ali. O barulho é o preço a pagar.

Assustado, o ônibus acelera com medo de que alguma peça desse dominó macabro tombe para o seu lado. Nada se vê além da poeira. Não consigo respirar. O motor insiste até fazer a gente voar para longe daquilo tudo, mesmo que ninguém saiba o que é aquilo tudo. Fico agarrada aos pés de um banco, humilde diante do pavor que me jogou ali. Será que é a minha vez? Pergunta ou oração, ninguém escuta.

Uma hora o ônibus para. Nem contava mais com isso. A brancura do ar e o silêncio anunciam um tipo de morte sem dor, êxtase e nem tristeza. Talvez seja o céu ou um tipo de inferno. Não sei. Só sei que preciso sair desse lugar.

Aos poucos, consigo manter os olhos abertos por mais tempo. Estamos na Candelária. Escuto gente chorando baixinho, gemidos e infindáveis “meu Deus”. A igreja que sempre enfeitou o final da Avenida Presidente Vargas continua de pé. Uso sua imagem como apoio e procuro minhas pernas com as mãos tentando me levantar. Cacos de vidro branquinhos cobrem o chão, os bancos, minha roupa e a pele que está de fora. O cara que estava do meu lado parece desacordado no meio do corredor. Tem uma moça abaixada chorando sobre um corpo e mais gente morta. Continuo sobre os cacos de vidro até a porta. Desço dois degraus e piso na praça em frente à Igreja. Alguns poucos fantasmas perambulam por lá, como eu. Não fazem nenhum barulho. Olho para frente: tudo pintado de branco e o silêncio de morte. Os prédios sumiram. Nunca vi tanto vazio. Não há mais rua, calçada, caminho. Apenas espaço e quietude. A avenida virou uma praça de guerra, sem guerra. Deveríamos copiar os chineses e chamá-la de Praça da Paz Celestial.

Sigo a pé.