quinta-feira, 17 de abril de 2014

Vôo


Chegando no Rio. Voltei, mas não adianta avisar. Espremida na cadeira do avião comecei a percorrer o roteiro costumeiro de pensamentos insanos. Quanto mais imobilizada melhor a viagem. Foi assim que me dei conta: não era só de você que tinha saudade. Mas das suas partes. A boca, os dedos, o pau. É muita ausência!
Não queria perder a pose diante da perua ao lado. Então cruzei a perna na calça preta apertada. Era tarde. Lembrei a sua boca com fome. E me imaginei provando um beijo farto, sem suspiros ou suspense. O encontro de quem procura e acha. Busca mais e mais acha. E assim numa sucessão de línguas bárbaras. Os dedos, esses mais pacientes, percorriam meus segredos com calma. Ao encontrá-los, já suados de ansiedade, recheavam seus mistérios com gemidos libertários. Minhas coxas pareciam fracas diante do desejo das partes. O quadril se inclinava para trás, milimetricamente. E na interseção das causas, o calor da intimidade se acendia. Eu me apertava perplexa. Como um homem endurecido pode ser tão macio ao toque. O beijo pode engolir enormes porções de desejo e cuspir tesão incomensurável. Melhorei a postura sentindo sua mão e braço segurando o meio de mim. Sonhei e implorei para que entrasse ali, no meio, passeando a sua presença na minha carne. A vontade doía, de tão grande. O encosto da poltrona rangeu, a imitar a cama sob nossos corpos. Respirei, meditando o sexo em um ponto imaginário de um ângulo incerto. Apertei os lábios para ajudar as coxas em seu esforço silencioso e patético. E um grito queimou entre as minhas pernas. Pousei.

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