Estávamos na cama como num filme. A TV ligada, minha cabeça
encostada no seu peito, a mão no pau. O peito em silêncio, quieto mesmo. Tudo
tranquilo. Normal. Noite de sexta-feira em casa, relação estável, essas coisas.
Só que faltava uma coisa. Estranho. Ouvi tantas vezes o coração dele batendo e
me aconcheguei naquele tum-tum gostoso.
E agora, cadê? Eu levantei a cabeça para olhar seu rosto. Ele nem se mexeu. Continuava
o mesmo, mas bem relaxado. Os olhos cegos pela TV pareciam ainda mais redondos.
Suas pálpebras teimosas piscavam em câmera lenta. E então se fecharam
suavemente. Ele dormiu como se nada estivesse acontecendo. Tentei voltar à
mesma posição, deitada de lado, sentindo o calor daquele corpo tão conhecido, a
cabeça apoiada no tronco quase sem pelos, o ouvido bem colado à pele como se
quisesse sugar um som de dentro dele. Tudo para confirmar que estava enganada.
Alguns ouvem demais. Eu estava escutando de menos. Nada. Nem tum nem som
nenhum. O pau ainda na minha mão, duro e quente como deve ser. O peito mudo.
Não, não. Isso é que não pode ser. Ai meu Deus. Fiquei maluca de vez, é isso? Que
merda! Como pode isso? Eu aqui tão perto e não consigo ouvir o coração dele batendo.
Morto ele não está. Será? Ainda colada nele, apertei um pouco a cabeça do pau,
esperando que latejasse, enchendo-se um pouco mais daquele tesão básico, instintivo,
que nem o sono tira. Continuava duro e só. Nenhum nervo se mexia dentro dele. Só
ouvia o ar entrando e saindo pelo nariz. Às vezes passava pela boca meio aberta
fazendo um barulho esquisito, mas familiar. Então morto ele não estava.
Respirava como se o ar daquele quarto fosse tão puro quanto o da montanha. Calma,
eu preciso ficar calma, tenho que respirar também, vai dar tudo certo, isso vai
passar etecétera. Busquei um mínimo de lucidez para lidar com aquela situação.
Sentei do lado dele e me torci toda para olhar dentro da boca e do nariz e ver
se enxergava alguma coisa diferente. Tudo escuro, sem secreções. Um cheiro meio
ácido. Como sempre. Quer dizer, mais ou menos. Em outras ocasiões o nariz dele
estaria escorrendo por conta do ar condicionado ligado. Apesar da alergia, esse
homem adorava o tal do ar condicionado. Aquele foi o único namorado que
valorizava mais um quarto fresquinho do que o meu fogo nas noites mais quentes.
Mas afinal, por que aquilo estava acontecendo logo com a gente? Que maluquice.
Ele dormia pesado como sempre dormiu. Até ressonava de vez em quando. Parecia
bem aquecido a ponto de transpirar. Seca. A pele estava seca. Nem suor saía
dele, cacete. O que está acontecendo? Entrei em pânico. Vou sair daqui, fugir
rápido. Que homem é esse na minha cama? O meu namorado eu conhecia, mas e esse
corpo que só respira? É isso. Devo estar dormindo também. Sonhando. Sempre
tenho pesadelos muito loucos. Aliviada, encostei a cabeça no peito dele
novamente. Juro, queria relaxar, mas não aguentei e me concentrei toda para ver
se sentia ainda que fosse uma leve vibração lá dentro. Só tive mais e mais daquele
nada. Silêncio. Rezei para acordar e depois para ele despertar um minuto que
fosse, virar e se enroscar em mim por trás, beijar meu pescoço só para
continuar dormindo gostoso. A essa
altura o teto estava a 10 cm da minha cabeça e baixando. Minhas mãos, suadas e
frias. Eu sim parecia morta. Respira. Tá tudo bem. Reza, reza. Respira. Enche a
barriga, sopra, continua soprando. Então, no meio do meu desespero, lembrei do
dia em que uma barata voadora entrou no meu quarto e eu sozinha em casa. Quando
vi aquela coisa se mexendo na cortina, dei um pulo da cama, bati a porta e em
dois segundos fui parar na sala. Foi tudo muito rápido. Até que aquela atitude instintiva
fez o tempo parar. Eu me vi sozinha na minha sala abafada, sentada no sofá, olhando
para as paredes. Enquanto isso a barata estava lá, no meu quarto, na minha
cama, curtindo um friozinho e assistindo um dos meus programas favoritos na TV.
Aí não deu, ou melhor, deu no que deu. Fui até a área de serviço peguei uma
vassoura para me defender do medo e do nojo e não sosseguei até matar o bicho.
É. Só tem um jeito de resolver isso: ver o que tem lá dentro. Fui até a cozinha
e peguei a única faca grande e afiada que tinha em casa. Eu me ajoelhei do lado dele na cama. Queria que
fosse diferente. Mas nesse momento, precisava
pagar pra ver. Inspirei e fiz um pequeno furo com a ponta da faca logo abaixo
do pescoço. O mais estranho é que ele não verteu nem uma gota de sangue. Isso
me deu mais coragem para continuar. Cortei a pele e a carne logo abaixo e quando
cheguei ao osso do peito, de onde saem as costelas, pressionei com força a
faca, usando todo o peso do meu corpo para quebrá-lo. Depois foi como cortar a
barriga de um peixe. A carne embaixo da pele não era vermelha, como acho que deveria
ser, e sim um rosa claro, quase sem cor. Os ossos branquinhos e nada de sangue.
Melhor assim. Fui até o baixo ventre, preservando intacto o pau que ainda se
mantinha incrivelmente duro. Comecei a tatear lá dentro, no vão aberto onde se
uniam as costelas. Claro que não encontrei nada. Ainda insisti e procurei mais
com a outra mão. Não dava para acreditar. Que encontraria um vazio no estômago
eu já sabia, ele era daquelas pessoas que engolem tudo com os olhos. Parei um pouco para ver seu rosto. Ainda
dormia. Respirava com os olhos cerrados. O ar entrando e saindo por todos os
lados. Os lábios ressecados. A boca estéril.
Se pudesse lhe concederia um desejo sincero para que ali voltasse a
brotar saliva. Sua boca se mantinha entreaberta. Parecia esperar alguma teta
que ali se pendurasse de forma que o pescoço não precisasse nem se virar. No
fim, o pau, cheio de promessas e disfarces, ainda se oferecia feito uma puta
comida por dentro, a ostentar a casca, seu único apoio. Pois é. No oco um toco ruído. Bicho de pé.
Conto publicado na antologia de contos eróticos Ponto G, Anthology Editora


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