domingo, 16 de fevereiro de 2014

O homem do Pau Oco















Estávamos na cama como num filme. A TV ligada, minha cabeça encostada no seu peito, a mão no pau. O peito em silêncio, quieto mesmo. Tudo tranquilo. Normal. Noite de sexta-feira em casa, relação estável, essas coisas. Só que faltava uma coisa. Estranho. Ouvi tantas vezes o coração dele batendo e me aconcheguei naquele tum-tum  gostoso. E agora, cadê? Eu levantei a cabeça para olhar seu rosto. Ele nem se mexeu. Continuava o mesmo, mas bem relaxado. Os olhos cegos pela TV pareciam ainda mais redondos. Suas pálpebras teimosas piscavam em câmera lenta. E então se fecharam suavemente. Ele dormiu como se nada estivesse acontecendo. Tentei voltar à mesma posição, deitada de lado, sentindo o calor daquele corpo tão conhecido, a cabeça apoiada no tronco quase sem pelos, o ouvido bem colado à pele como se quisesse sugar um som de dentro dele. Tudo para confirmar que estava enganada. Alguns ouvem demais. Eu estava escutando de menos. Nada. Nem tum nem som nenhum. O pau ainda na minha mão, duro e quente como deve ser. O peito mudo. Não, não. Isso é que não pode ser. Ai meu Deus. Fiquei maluca de vez, é isso? Que merda! Como pode isso? Eu aqui tão perto e não consigo ouvir o coração dele batendo. Morto ele não está. Será? Ainda colada nele, apertei um pouco a cabeça do pau, esperando que latejasse, enchendo-se um pouco mais daquele tesão básico, instintivo, que nem o sono tira. Continuava duro e só. Nenhum nervo se mexia dentro dele. Só ouvia o ar entrando e saindo pelo nariz. Às vezes passava pela boca meio aberta fazendo um barulho esquisito, mas familiar. Então morto ele não estava. Respirava como se o ar daquele quarto fosse tão puro quanto o da montanha. Calma, eu preciso ficar calma, tenho que respirar também, vai dar tudo certo, isso vai passar etecétera. Busquei um mínimo de lucidez para lidar com aquela situação. Sentei do lado dele e me torci toda para olhar dentro da boca e do nariz e ver se enxergava alguma coisa diferente. Tudo escuro, sem secreções. Um cheiro meio ácido. Como sempre. Quer dizer, mais ou menos. Em outras ocasiões o nariz dele estaria escorrendo por conta do ar condicionado ligado. Apesar da alergia, esse homem adorava o tal do ar condicionado. Aquele foi o único namorado que valorizava mais um quarto fresquinho do que o meu fogo nas noites mais quentes. Mas afinal, por que aquilo estava acontecendo logo com a gente? Que maluquice. Ele dormia pesado como sempre dormiu. Até ressonava de vez em quando. Parecia bem aquecido a ponto de transpirar. Seca. A pele estava seca. Nem suor saía dele, cacete. O que está acontecendo? Entrei em pânico. Vou sair daqui, fugir rápido. Que homem é esse na minha cama? O meu namorado eu conhecia, mas e esse corpo que só respira? É isso. Devo estar dormindo também. Sonhando. Sempre tenho pesadelos muito loucos. Aliviada, encostei a cabeça no peito dele novamente. Juro, queria relaxar, mas não aguentei e me concentrei toda para ver se sentia ainda que fosse uma leve vibração lá dentro. Só tive mais e mais daquele nada. Silêncio. Rezei para acordar e depois para ele despertar um minuto que fosse, virar e se enroscar em mim por trás, beijar meu pescoço só para continuar dormindo gostoso.  A essa altura o teto estava a 10 cm da minha cabeça e baixando. Minhas mãos, suadas e frias. Eu sim parecia morta. Respira. Tá tudo bem. Reza, reza. Respira. Enche a barriga, sopra, continua soprando. Então, no meio do meu desespero, lembrei do dia em que uma barata voadora entrou no meu quarto e eu sozinha em casa. Quando vi aquela coisa se mexendo na cortina, dei um pulo da cama, bati a porta e em dois segundos fui parar na sala. Foi tudo muito rápido. Até que aquela atitude instintiva fez o tempo parar. Eu me vi sozinha na minha sala abafada, sentada no sofá, olhando para as paredes. Enquanto isso a barata estava lá, no meu quarto, na minha cama, curtindo um friozinho e assistindo um dos meus programas favoritos na TV. Aí não deu, ou melhor, deu no que deu. Fui até a área de serviço peguei uma vassoura para me defender do medo e do nojo e não sosseguei até matar o bicho. É. Só tem um jeito de resolver isso: ver o que tem lá dentro. Fui até a cozinha e peguei a única faca grande e afiada que tinha em casa.  Eu me ajoelhei do lado dele na cama. Queria que fosse diferente.  Mas nesse momento, precisava pagar pra ver. Inspirei e fiz um pequeno furo com a ponta da faca logo abaixo do pescoço. O mais estranho é que ele não verteu nem uma gota de sangue. Isso me deu mais coragem para continuar. Cortei a pele e a carne logo abaixo e quando cheguei ao osso do peito, de onde saem as costelas, pressionei com força a faca, usando todo o peso do meu corpo para quebrá-lo. Depois foi como cortar a barriga de um peixe. A carne embaixo da pele não era vermelha, como acho que deveria ser, e sim um rosa claro, quase sem cor. Os ossos branquinhos e nada de sangue. Melhor assim. Fui até o baixo ventre, preservando intacto o pau que ainda se mantinha incrivelmente duro. Comecei a tatear lá dentro, no vão aberto onde se uniam as costelas. Claro que não encontrei nada. Ainda insisti e procurei mais com a outra mão. Não dava para acreditar. Que encontraria um vazio no estômago eu já sabia, ele era daquelas pessoas que engolem tudo com os olhos.  Parei um pouco para ver seu rosto. Ainda dormia. Respirava com os olhos cerrados. O ar entrando e saindo por todos os lados. Os lábios ressecados. A boca estéril.  Se pudesse lhe concederia um desejo sincero para que ali voltasse a brotar saliva. Sua boca se mantinha entreaberta. Parecia esperar alguma teta que ali se pendurasse de forma que o pescoço não precisasse nem se virar. No fim, o pau, cheio de promessas e disfarces, ainda se oferecia feito uma puta comida por dentro, a ostentar a casca, seu único apoio. Pois é. No oco um toco ruído. Bicho de pé.

Conto publicado na antologia de contos eróticos Ponto G, Anthology Editora


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